Crítica: Sharp Objects pode até não cortar, mas deixa cicatrizes

A HBO não avisou, mas nós iremos: Sharp Objects contém cenas fortes com violência e possui gatilhos sobre automutilação.

Primeiramente, devo deixar claro que esperei ansiosamente por Sharp Objects desde que a HBO anunciou que adaptaria o livro.  Ainda que fizesse muitos anos desde que eu li a obra original de Gillian Flynn, eu me lembro bem que devorei tudo em um final de semana, sedenta por saber quem era o assassino de Wind Gap e, principalmente, quem era Camille Preaker.

A série com certeza não me decepcionou, mas a minha memória sim.

Devo deixar claro aqui que Sharp Objects não é sobre assassinatos, não é sobre psicopatas e muito menos um suspense investigativo, ainda que essa seja a trama. Sharp Objects é sobre pessoas, principalmente sobre Camille, é um estudo de personagem em sua mais límpida e clara constituição. E eu tinha esquecido disso tudo, lembrando-me apenas da relação tóxica de Camille com sua mãe e quem tinha matado as garotas.

Sharp Objects é sobre se afogar. Lenta e tortuosamente. Do jeito que qualquer depressão ou relacionamento tóxico faz com uma pessoa.

 

E é por isso que já aviso, Sharp Objects não é para qualquer um.

Por ser um estudo de personagem tão claro e verdadeiro, a série não se incomoda com linhas temporais, tal como acontece na nossa própria mente. Ao adentrarmos na vida de Camille, entramos também em sua cabeça e vemos seu passado, suas inseguranças e incertezas do mesmo jeito que ela vê: sem qualquer conexão ou explicação.

Essa é, com certeza, uma das características mais belas da série. Sua falta de compromisso com o entendimento do público, que deve encaixar as peças e compreender a história por si só, torna a série um quebra-cabeças de alta dificuldade.

 

Protagonizando Sharp Objects, temos a bela Amy Adams interpretando Camille e é uma forte candidata ao Emmy. Vemos a sua decadência, seu desespero e sua completa falta de interesse em tudo que ao seu redor. Pelo menos no início, antes dela se ver presa ao seu passado e realmente se aproximar de Amma (Eliza Scanlen), Camille provoca quase repugnância.

Eliza e Patricia Clarkson, como Adora, também merecem seu reconhecimento. Enquanto Amma era muito fácil amar e odiar com a mesma intensidade, Adora era o pesadelo de qualquer pessoa, ela é um vilão com tantas camadas que é até mesmo difícil chamá-la assim. Ela encanta com a mesma força que perturba e Patrícia soube segurar o papel com mais força do que eu achei que seria possível ao imaginar uma adaptação.

Infelizmente, a minha experiência com o livro foi bem mais impactante, por um motivo que eu só consegui perceber nos episódios finais, quando atrasei para ver os 3 últimos e tive a oportunidade de assistí-los todos de uma vez.

Sharp Objects é uma série maratonavel, não sei se foi feita para ser vista um episódio por semana, como a HBO a apresentou.

Porque se afogar aos poucos e respirar em intervalos maiores, não é nem de perto tão sufocante quanto fazê-lo tudo de uma vez.

Se entramos na cabeça de Camille e vemos suas lembranças e desesperos do mesmo jeito que ela, não parece fazer sentido podermos respirar entre os episódios quando ela não o faz. Se Camille não tem intervalos, por que deveria ter a sua série?

Mas, como eu disse anteriormente, Sharp Objects não é uma série fácil e nem deveria ser. Afinal, é uma série sobre cortes e cicatrizes e me diga, alguma das suas foram fáceis?

Crítica: Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas: feminismo e sensibilidade

A estréia em 2017 do filme passou desapercebida por mim e talvez tenha passado por você também, mas não deveria.

Eu topei com esse filme por acidente, num grupo de Facebook onde disseram que ele era impressionante e sensível. Meu primeiro pensamento foi: como um filme sobre ménage à trois e sadomasoquismo pode ser sensível?

Os filmes que assisti, com exceção de talvez um ou dois, que apresentaram relações à três me pareceram sempre bem machistas, como se tivessem saído direto de um sonho masculino, como se as mulheres naquela cena fossem simplesmente objetos na mão do parceiro sortudo. Mas a direção cuidadosa de Angela Robison mudou completamente o meu pensamento inicial. Se eu tivesse que escolher uma única palavra para definir Professor Marston e as Mulheres-Maravilha, essa palavra seria: sensível.

O longa é inspirado na história real do Doutor Marston (Luke Evans), inventor do polígrafo (comumente conhecido como detector de mentiras) e da ilustre personagem Mulher-Maravilha. William Marston e sua esposa Elizabeth Marston (Rebecca Hall) escolhem uma aluna para lhes ajudarem em suas pesquisas sobre psicologia em Harvard. Ambos acabam se apaixonando e se envolvendo com a sua pupila, Olive Byrne (Bella Heathcote), e passam a viver um amor proibido. O romance não passa desapercebido pela sociedade ao redor, resultando na demissão dos Marstons de Harvard, forçando-os a achar uma outra profissão e mentir para todos sobre a sua vida entre quatro paredes.

Professor Marston e as mulheres-maravilhas movie

O foco do filme é, claramente, as mulheres e seu incrível poder. Enquanto Olive se apresenta submissa, gentil e frágil (representando o alter-ego da super-heroína e secretária de Steve Trevor), Elizabeth é fervorosa, forte e insubordinada (personificando a semi-deusa praticamente indestrutível que conhecemos como Mulher-Maravilha). Marston se mostra apenas como um elo de ligação entre as duas, um observador que, como nós, se impressiona com o brilhantismo das duas mulheres em sua vida.

Outro ponto forte do filme é a sua fotografia, cuidadosamente trabalhada para proporcionar uma atmosfera de romance e magia. Até mesmo as cenas sexuais possuem um teor mais romântico, focadas em mostrar o envolvimento dos personagens uns com os outros, ao invés de mostrar aquilo como algo carnal. Parece excepcionalmente difícil tornar uma cena com sadomasoquismo e cordas algo carinhoso, mas Robinson o faz com maestria.

MV5BNTYxNjI5ZmEtNGRlOS00MjY5LTk3MDEtNTVjNDRkM2EzNGY1XkEyXkFqcGdeQXVyNDg2MjUxNjM@._V1_SY1000_SX1500_AL_

Tudo isso culmina para a criação de uma das personagens que até hoje é importante para o movimento feminista e o filme nos leva por esse caminho de luta, aceitação e amor de forma leve e fluída. Não poderia ser diferente, afinal, o que seria da Mulher-Maravilha e das Mulheres-Maravilha ao nosso redor sem esses três pilares?